
É impossível ficar impassível diante de tantas coisas acontecendo em nossa cidade. Não posso me conformar com o mundo enviesado que enxergo. Um lugar em que nascemos, crescemos e vivemos nossas vidas e de repente, nos conformamos. Não posso concordar com a falta de debate autêntico para o surgimento e criação de oportunidades, justiça social, emprego, mais educação de qualidade (para todos) e cultura para todos que vivemos no vale do rio doce.
Mais que um mero discurso e posicionamentos demagógicos, precisamos da união de todos para reverter as causas de tanto sofrimento de famílias que vêem seus filhos e pais de família irem embora.
Tratar do nosso chão. Um lugar tão cheio de proprietários! Donos da terra!
Nossa terra! E deram-lhe o nome de Governador Valadares.
Um lugar que mais parece uma terra de Coronéis esfarrapados e sertanejos desterrados.
Mas há espaço e tempo para a mudança. Nossa origem como comunidade foi pontuada por solidariedade e verdadeiro pioneirismo. Onde trabalhadores das mais diversas regiões deixaram sua luta e sua vida como sinal de construção de um ideal. Construir uma cidade. Famílias que para aqui vieram com verdadeiro sentido comunitário em meio ás dificuldades imensas do impaludismo e do meio inóspito.
Ponto de partida e de chegada de tropeiros, viajantes e aventureiros.
Lugar do sonho de se fazer, de “banburrar”, de conquistar e também de se aquietar.Ponto de briga, de união, de conchavos políticos e matreirices diversas. Lugar onde o Estado pôs a sua mão forte nos anos 1930 para ordenar o espaço, coordenar o tempo e delimitar as áreas de sua influência política, econômica, social e cultural. Tempo, lugar e espaço em que o Estado decidiu que a região era um dos locais no Brasil que servia como almoxarifado ideal e estratégico para as alianças feitas com os países da aliança (Estados Unidos,Inglaterra e França) durante a segunda guerra mundial. Rodovias e ferrovias testemunhas do esforço análogo aos da escravidão onde mulheres, adolescentes e até crianças trabalhavam de sol a sol na mica, ganhando míseros trocados como salário.
Há espaço e tempo para mudanças. Quando assumirmos, todos, o nosso compromisso como cidadãos e reconstruirmos nossa base histórica. Soubermos dar valor ao que nos restou. Nossas belezas naturais tão vilipendiadas como a Ibituruna, tão cheia de proprietários e vazia do conhecimento da grande maioria da população e de um planejamento de revitalização. Nosso Rio Doce tão maltratado pelo descaso ambiental e pela poluição. Nosso patrimônio Cultural, em sua instância natural, material e imaterial, precisa ser revitalizado com decência e urgência. O Prédio da antiga Açucareira se apresenta como um grande desafio para toda a sociedade. Deve, a meu ver ser um espaço cultural, plural, diverso e acima de tudo democrático. Um bem público construído com muito esforço pelo trabalho de pessoas humildes e corajosas. Se o capital privado participou ali, certamente foi beneficiado com isenções tributárias de toda ordem e à menor dificuldade conjuntural foi-se embora deixando suas paredes e estruturas monumentais, marca do trabalho! Já temos o maior Mecenas deste patrimônio: os trabalhadores e as famílias destes trabalhadores na Cia. Açucareira Rio Doce. Por isso qualquer planejamento e debate sobre os destinos da Açucareira devem passar por toda a sociedade, sem exclusões, sem exclusivismos!
Nossa Biblioteca Pública, templo do saber e de experiências humanas. Acúmulo Cultural originado e construído inicialmente pela ousadia e inteligência única do Professor Paulo Zappi é outra Casa que roga por dias melhores. Não é mais possível conviver e aceitar nosso acervo, funcionários e toda a comunidade usuária serem tratados como indigentes. Na situação atual, todos correm riscos, ao menor sinal de chuva. È inaceitável! Se nossa realidade está enviesada, também enxergo enviesado? Quero enxergar de outra forma! Uma forma digna de tratar nosso povo e a nossa cultura. Nosso chão. Onde nascemos, vivemos e trabalhamos. A história é testemunha das várias biografias assentadas neste constructo. No balanço da história, ativo e passivo estão em contínua simbiose. Aqui no Vale do Rio Doce, não podemos mais concordar com o estado de insolvência social, econômica, ambiental e de desenvolvimento. Por isso acredito que possamos mudar para melhor nosso tempo, nosso espaço e nosso lugar.Depende de cada um. Se formos juntos vai ser muito melhor!



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